XXIII - PRIMAVERA EM EVORAMONTE
Publicada em 07/04/2017 às 16:33
Aqui é primavera e as estradas estão margeadas por flores amarelas e brancas. Os montes estão verdes de oliveiras ou sobreiros mas também salpicados por arbustos abundantes de pequenas flores amarelas silvestres. Não são flores para vasos nem para ramalhetes que os enamorados ofertam às damas inquietas. Fazem parte de quadros pontilhistas para encantar a vista num museu a céu aberto. Algumas vezes o chão está coberto de verde misturado a umas flores em espigas amarelo ouro que fazem uma paisagem deslumbrante. Meu jardim está começando a florir e as ervas estão cobrindo tudo. As hortelãs que eram apenas um punhado de cheiro tomaram parte do jardim na frente da varanda invadindo minhas touceiras de margaridas coloridas. O cheiro sobe às narinas com o vento ou com a água da mangueira. São pequenos acontecimentos cotidianos que trazem um bem estar físico impossível de descrever. A primavera explode na alma e no coração numa linguagem bem rasteira como as ervas daninhas que tentam abafar as flores nobres e nesse caso a expressão comum banaliza a linguagem apropriada. As flores desabrocham em todos os lugares. Até as ervas daninhas se encheram de flores silvestres.

XXII - A FUNDAÇÃO OBRAS E SEUS HABITANTES FANTÁSTICOS - PARTE I
Publicada em 19/02/2017 às 12:36
A Fundação Obras na Herdade da Marmeleira, no Alentejo e bem próxima à nossa casa no Monte da Fazenda recebe artistas do mundo inteiro como residentes, cada um trabalhando sua arte e sua criatividade. Jan Kremer meu parceiro lá se apaixonou pela região quando se hospedava para escrever um de seus livros. Ludger van der Eerden e sua mulher Carolien van de Laan se dedicam a estimular e cuidar desse local, a promover eventos e exposições, a documentar tudo que lá é produzido. Temos a alegria de conviver com esse casal e de frequentar muitos dos jantares coletivos realizados na herdade, muitas vezes acompanhados de exposições ou pequenas palestras sobre a obra que está sendo realizada. Nossa vida no Monte da Fazenda seria mais pobre sem esses maravilhosos e fantásticos vizinhos. Nesses períodos conhecemos artistas excepcionais alguns dos quais são nossos amigos, como Ingrid Simons uma pintora e ceramista muitas vezes premiada, uma holandesa que fala português e ama a paisagem alentejana. Esse é o primeiro de outros escritos sobre esses fantásticos habitantes e se refere a um curto período em 2014, quando só íamos lá de férias.

XXI - A MORTE DOS CARACÓIS
Publicada em 11/09/2016 às 03:47
Tinham me dito que nessa época do ano não são os caracóis que comem as folhas das árvores e das parreiras, todas cheias de furos. Os caracóis gostam de dias úmidos e clima ameno e procuram sempre a sombra dos arbustos, andam devagar quase parando, atravessam enormes espaços para chegar a uma planta verdinha e deliciosa, sobem em vasos lisos atrás das folhinhas, deixam uma baba espumante aonde estão comendo. Em Portugal eles são chamados sinônimos do verão provavelmente nas placas dos restaurantes, porque na verdade gostam de dias úmidos e clima ameno, dos crepúsculos e das noites quando o seu corpo hermafrodita canta doces canções de amor à sua própria metade corporal. O caracol anda com a casa às costas. Um velho ditado esse e também mote de advinhações para crianças. Mote também para uma coleção de pequenas poesias infantis sobre caracóis e até para um poema de García Lorca! Não como caracóis nem caracoletas nem nenhuma das 87 espécies desses moluscos em Portugal. Passo ao largo dos restaurantes onde há sempre uma placa: Temos caracóis. Temos até demais aqui nos jardins.

XX - DORPSFEEST IN BELD - FESTIVAL DA FREGUESIA DE EVORAMONTE EM FOTOS
Publicada em 08/09/2016 às 04:51
A festa anual da aldeia, em Evoramonte cobre um período de quatro dias. A abertura não incluiu um discurso do chefe da aldeia, mas a inauguração do bar. Em seguida, quase toda a população da aldeia se posiciona na borda da pista de dança e alguns jovens casais e as mulheres de meia idade do local vão dançar. Tive que passar todo esse tempo no terraço do bar. Pode ser um pouco louco mas esse aconchego das pessoas no bar misturado à animação da música e da dança dá à festa um certo charme. Em todo caso nos divertimos muito por um bom tempo.

XVIII - SAUDADES DE TANTAS COISAS
Publicada em 04/09/2016 às 07:43
Não consigo achar um poema que traduza essa saudade visceral por você que mora dentro de mim. Não me consome, não me entristece, não doi, não muda minha rotina e nem o meu prazer de viver. Apenas faz parte de mim como uma sombra. Aprendi que não só a saudade mas o amor tem uma dimensão física na medida em que o amor implica em mudanças e decisões. Não mudanças espirituais, bem estar físico ou segurança. Mas mudar para encontrar. Viajar para encontrar. Mudar de país para encontrar. Mudar estilo de vida e de trabalho para encontrar. Para viver o amor que está crescendo dentro da gente. Mas você veio ao Brasil e nos divertimos muito em Recife e no Rio de Janeiro. E estivemos uma semana em Lisboa seguindo os passos de Fernando Pessoa e aproveitando as delícias dessa cidade cosmopolita, antiga e nova, com surpresas a cada esquina. E agora estou de volta à nossa casa no Monte da Fazenda. Voltamos ao nosso cotidiano de dias quase sempre perfeitos ou quase mais-que-perfeitos.

BLOGUEIRA

CRISTIANA ALTINO DE ALMEIDA

Médica especializada em Medicina Nuclear e Endocrinologia. Uma habitante a mais de Evoramonte onde vivo com Jan Kremer, jornalista e escritor holandês. Escolhemos Portugal para viver parte do ano. Outra parte pretendemos passar no Brasil, na Holanda e viajando. Queremos aproveitar nosso tempo priorizando qualidade de vida.

DICAS
VAMOS EXPERIMENTAR AS DELÍCIAS DA GADANHA MERCEARIA?
GADANHA MERCEARIA E RESTAURANTE, ESTREMOZ.
QUE TAL LER "FERNANDO PESSOA - UMA QUASE AUTOBIOGRAFIA"?
O livro me encantou tanto, porque Fernando Pessoa é uma paixão comum entre eu e Jan Kremer, que em 2015 passamos cinco dias em Lsboa seguindo os passos desse poeta múltiplo. Conhecendo os lugares que frequentava, a casa em que morou e morreu, os bares e restaurantes. Fomos atrás da Tabacaria, segundo Zé Paulo. Confesso que uma frustração pelo abandono do lugar mas não perdi a confiança de que nosso escritor pernabucano acertou o local verdadeiro, seguindo minunciosamente a descrição da Tabacaria, a vista da janela do local onde trabalhava, os donos na época. Um dia, acredito, os portugueses vão reconhecer que ele tem razão.
A LOJA DO GATO PRETO
Casas livres, donos felizes, esse é o lema da Loja do Gato Preto. A inspiração do nome surgiu quando a gata da casa “deu à luz” uma ninhada onde havia apenas um gato todo preto. O gato preto tornou-se um sinal de sorte e o símbolo da relação da empresa com o artesanato e com a cultura proverbial portuguesa. A Loja do Gato Preto tem uma afetividade especial por gatos e pelos seus comportamentos e, por isso, as lojas comercializam várias coleções com inspiração nestes animais, destacando-se especialmente as canecas, os serviços e os têxteis.
UM FANTÁSTICO MUSEU NA HOLANDA: O MUSEU KRÖLLER-MÜLLER.
O Museu Kröller-Müller é um museu de arte que inclui um jardim de esculturas, localizado no parque Nacional de Otterlo na Holanda (Hoge Veluwe National Park), província de Gelderland. Falo desse belo museu como digno de um dia inteiro a ele dedicado nos passeios na Holanda. Primeiro porque é o segundo museu com mais pinturas de Vincent van Gogh na Holanda e no mundo, só perdendo para o Museu van Gogh, em Amsterdam. Segundo porque o Jardim das Esculturas (Beeldentuin) é um divino passeio ao ar livre entre obras de arte modernas e bem distribuídas. O museu tem também obras de arte surpreendentes de artistas modernos e contemporâneos, representando diversos movimentos artísticos como o impressionismo, o cubismo e o simbolismo. A coleção de esculturas inclui uma de Auguste Rodin (como amo o Museu Rodin em Paris) e mais Henry Moore, Jean Fabre, Jean Dubuffet e muitos outros artistas. Mostra a arte dos anos sessenta, a arte dita avant-garde e a arte contemporânea de várias nacionalidades.Uma perfeita simbiose entre arte, arquitetura e natureza. Escrevendo agora sobre esse museu, e não esqueçam de prestar atenção ao pavilhão Rietveld, senti uma vontade enorme de lá voltar prestando muito mais atenção a cada obra. Tenho certeza que todos que forem vão amr o passeio, a cerca de duas horas de Amsterdam, por trem ou por ônibus.