BLOGUEIRA

CRISTIANA ALTINO DE ALMEIDA

Médica especializada em Medicina Nuclear e Endocrinologia. Uma habitante a mais de Evoramonte onde vivo com Jan Kremer, jornalista e escritor holandês. Escolhemos Portugal para viver parte do ano. Outra parte pretendemos passar no Brasil, na Holanda e viajando. Queremos aproveitar nosso tempo priorizando qualidade de vida.

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XXIV - PORTUGAL NA PRIMAVERA

Cheguei em Portugal de novo mas pela primeira vez em 2018, dia 16 de maio. As flores me esperavam em todos os lugares. Jan me esperava no aeroporto como sempre com seu jeito largo e carinhoso. Sr. Bolas me esperava com sua limousine. Eu mesma esperava a doce atmosfera portuguesa com sua paz e sua beleza trazendo uma leveza de ser.

Seguimos de carro pela autoestrada completamente rodeada de verde. Verde como nunca vi o campo português, resultado de chuvas contínuas e pesadas durante todo o inverno e início de primavera. Paramos no Império das Bifanas numa cidade próxima para comer bifanas. Bifanas são finos bifes de porco ou vitela, fritos, com um ovo frito em cima, arroz e batatas fritas. O restaurante, na beira da estrada parecia um de nossos restaurantes de beira de estrada. Tipo o Rei das Coxinhas em Gravatá. Sempre império, rei, rainha, Brasil e Portugal sentem a nostalgia das monarquias. A diferença é que a garçonete falava perfeitamente inglês e que a comida é extremamente barata. As batatas fritas perfeitas.

Quase duas horas de viagem e nossas flores, nossos temperos e nosso gato me esperavam. Com todo o vigor. Max com todo amor. Eu senti a felicidade de oito gatos ronronando como Churchill disse nas suas memórias de guerra.

Estive fora por quatro meses e quando entrei em casa tudo era familiar e comum. A rotina voltou. Apesar de pequenas mudanças porque Jan adora mudar a posição de objetos e esconde o que ele não aprecia, tipo as louças da Bordallo Pinheiro. Que eu amo mesmo quando são até feias e exageradas. As antigas podem alcançar preços extraordinários nas feiras de antiguidades, tipo 900 euros. As novas podem ser compradas facilmente. 

As flores me esperavam. Também chegaram as moscas, as abelhas, as formigas, os caracóis. Todos os insetos possíveis cheios de vida nessa primaver outonal. Chuva e frio. Teve até uma chuva de gelo que durou dez minutos. Outras vezes aquele céu azul puro e sem nuvens típico de Portugal.  Os gatos perderam a capa de gordura do inverno e ganharam uma incrível energia e correm e pulam o dia todo. Um mundo em festa fora e dentro de nossa casa.

Andamos por esses caminhos cheios de verde e pontilhados de cores e a paisagem nos deslumbrou pela enésima vez. Cada vez descubro um novo ângulo do Castelo de Evoramonte para fotografar. E as ordeiras oliveiras subindo a colina como um exército pronto para atacar. Atacam mesmo com um pólen esverdeado que cobre de pó as mesas do terraço. Volto à rotina das ervas daninhas e de cortar flores murchas, rosas e margaridas. Num dia as touceiras estão lindas, no outro prontas para novo corte. E na maior parte das vezes piso em buracos de formigas inesperados e elas sobem pelas minhas pernas e me mordem. O que causa uma alergia. A ponto de não querer usar vestido e semore cobrir as pernas como criança trelosa com calças. De preferência tipo legging, a melhor roupa para a Europa nessa primavera/ inverno, ainda fria. Fácil de sobrepor blusas e casacos.

Uma andorinha só não faz verão em todas as línguas e comprovo a verdade do ditado aqui. Vi uma andorinha em dois dias diferentes. Precisamos de um bando de andorinhas pousando nos fios elétricos para que o verão chegue. Procuro todos os dias mas só vejo pardais na pose das andorinhas. Chove incansavelmente aqui. Temos que ver a previsão do tempo para sair. Estamos agora em 10 de junho e ainda não é verão. É primavera pelas flores, mas não pelo clima. 

Observo essa natureza exuberante e tranquila e acho mistérios que não compreendo. Por exemplo os pequenos caracóis, de diâmetro subcentimétrico, procuram subir nas cadeiras de vime sintético do jardim na frente da cas. São dez em média todo dia. Para onde vão nessa velocidade e comer o que? Tiro todos e jogo nos gramados e no outro dia outros voltaram subindo devagar e sempre. Outros sobrem na porta de entrada azul escura e otros sobem pelas paredes. Claro que alguns são mais objetivos e sobem comendo e babando as folhas das parreiras ou de qualquer outra planta.

Minhas touceiras de alecrim e de tomilho cresceram tanto que perderam a forma e ameaçam sufocar as roseiras. São tão lindas que dá perna cortar. Querem uma infusão de alecrim? Basta ferver água e colocar um raminho dentro. As de lfazema estão crescendo lentamente mas comsuas fores lilases espetadas como espigas de trigo. Desejava ter uma parte do talento de Van Gogh ou de Monet para retratar essa beleza cotidiana. Aé os pontilhados de Pissarro seriam expressivos. 

Outro dia Max, nosso gato apareceu com uma cobra pequena na boca. A cobra imóvel parecia morta. Mas era uma fingidora porque quando tirei Max ela começou a se mover bem rapidinha. Chamei Jan em português gritando Jan, corra, uma cobra. E ele entendeu e veio. Decidimos matá-la já que não examinei para saber se era ou não venenosa. Jan chegou armado de uma pá de cabo longo para acertar a bicha. Foram muitas e muitas batidas, com força, mas a depender da densidade do plástico da cobra a danada ainda se mexia. a pá desmanchou-se em mil pedaços e a cobra ferida e mexendo. Fizemos uma maldade: trancamos a serpente invasora num saco de plástico com minha ajuda temerosa que detesto cobras e afins. Trancamos o saco com a cobra dentro num balde de lixo de metal que há tr6es dia não abro com medo de ver a cobra se mexendo ou fora do saco ou sei lá o que. Só sei que todos os gatos do Monte da Fazenda chegam e vão direto examinar o balde e o entorno. Por sorte não tem força para tirar a tampa.

Então estamos aqui, num tempo chuvoso, com um céu nublado que às vezes é azul puro, cercados pelo verde de vários tons, pelos sobreiros e pelas oliveiras, pelas flores e pelos arbustos de temperos, pelas ervas daninhas, pelos gatos que fazem da nossa casa pensão, eplo castelo no horizonte, pelas formigas em todo canto e por uma cobra reclusa e trancada que não sei se está viva ou não.

Mesmo assim no fim do dia, quando o sol aparece trazendo o azul de Portugal sentamos nas cadeiras inglesas de ferro verde e tomamos cerveja ou vinho do Porto e ficamos só embebidos nessa calma, aproveitando a qualidade de vida que temos. Cercados também por todas as vinheiras do Alentejo e pelos seus velhos andarilhos e cheios de energia. Ontem encontramos uma de nossas vizinhas de 92 anos que por esporte subiu mais de 400 metros, andando mais de 2,5 quilômetros até o Castelo de Evoramonte. Um de seus passeios diários favoritos. Nos já fizemos essa subida, já subimos a mesma distância para a aldeia mas confesso, não é um passeio cotidiano mas um esforço físico agradável a ser feito quando planejado.

 

 

 

 

 

 

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