BLOGUEIRA

CRISTIANA ALTINO DE ALMEIDA

Médica especializada em Medicina Nuclear e Endocrinologia. Uma habitante a mais de Evoramonte onde vivo com Jan Kremer, jornalista e escritor holandês. Escolhemos Portugal para viver parte do ano. Outra parte pretendemos passar no Brasil, na Holanda e viajando. Queremos aproveitar nosso tempo priorizando qualidade de vida.

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XXIII - PRIMAVERA EM EVORAMONTE

Cheguei aqui em Portugal no dia 2 de abril e encontrei um tempo magnífico. Temperaturas de dia entre 23 e 25 graus. com muito sol e sensação térmica de 28 graus, penso. A noite esfria e a temperatura cai para 11 a 12 graus. Mas tenho um aquecedor a Diesel no meu quarto e durmo confortavelmente só com um ou dois edredons. No inverno em janeiro cheguei a usar 5 entre edredons e cobertores. Além disso Bella e/ ou Max dormem comigo.

Na viagem pela TAP mudaram minha cadeira duas vezes: a primeira da janela  12 para 13 porque tinham vendido a cadeira duas vezes. Isso mesmo: quando marcamos o assento na internet temos que pagar entre 80 e 117 reais pelo lugar. Mas na entrada do vôo chamaram de novo e me colocaram de graça na primeira classe. Aí é outra história, inclusive sobre a comida: um filet mignon com molho de mostarda que era um pitéu. Pretendo repetir aqui mas não achei os grão de mostarda ontem no Pingo Doce. E uma carta de vinhos. Quando me perguntaram se vinho do Alentejo ou do Douro claro que escolhi o primeiro. Essa é a minha região e me acostumei de verdade ao sabor do nosso vinho.

Ontem fomos a Estremoz. Jan estava com saudades de um bom almoço e então decidimos comer na "A Cadeia", chamada "Old Jail" para os turistas que por lá andam. Meu prato era um punhado daqueles enormes camarões que eles chamam Tiger  e que são quase do tamanho de um lagostim. Com casca, grelhados e acompanhados de três diferentes molhos e de uma batata assada. As batatas aqui são muito duras e não parecem com as nossas que assadas derretem na boca. A Cadeia era a antiga cadeia quinhentista junto ao castelo da Rainha Santa Isabel, hoje uma bela pousada no circuito das pousadas de Portugal.

Aqui é primavera e as estradas estão margeadas por flores amarelas e brancas. Os montes estão verdes de oliveiras ou sobreiros mas também salpicados por arbustos abundantes de pequenas flores amarelas silvestres. Não são flores para vasos nem para ramalhetes que os enamorados ofertam às damas inquietas. Fazem parte de quadros pontilhistas para encantar a vista num museu a céu aberto. Algumas vezes o chão está coberto de verde misturado a flores em espigas amarelo ouro que fazem uma paisagem deslumbrante.

Meu jardim está começando a florir e as ervas estão cobrindo tudo. As hortelãs que eram apenas um punhado de cheiro tomaram parte do jardim na frente da varanda invadindo minhas touceiras de margaridas coloridas. O cheiro sobe às narinas com o vento ou com a água da mangueira. São pequenos acontecimentos cotidianos que trazem um bem estar físico impossível de descrever. A primavera explode na alma e no coração numa linguagem bem rasteira como as ervas daninhas que tentam abafar as flores nobres e nesse caso a expressão comum banaliza a linguagem apropriada. As flores desabrocham em todos os lugares. Até as ervas daninhas se enchem de flores silvestres.

Mas qual a importância real de uma escrita perfeita quando apenas tento traduzir a vivência nesse país que é meu segundo lar? Lembro do inverno em janeiro quando o frio cultivado nas paredes espessas dessa casa antiga alentejana rouba o ânimo e enche o corpo de uma letargia difícil de vencer. Quando o céu nublado de nuvens brancas ou cinzas não convidam a caminhar ou a contemplar a vida sentada na mesa de ferro inglesa de típica cor verde escura que temos no jardim. Mas esse tempo passou. Afinal tudo passa. E quando a primavera brota arranca da mente todo esse cinza invernal.

Às vezes não sei diferenciar as ervas daninhas que sufocam as flores das ervas menos perigosas. Elas crescem numa velocidade incrível. Sempre que vou ao jardim volto com um punhado delas arrancadas com a mão direto para um balde de lixo. Outras deixo no lugar pelas pequenas flores que dão cor ao chão coberto de predregulhos. Afinal o chão é seco e não propício ao cultivo de um verdadeiro jardim ao modelo rígido e aristocrático dos franceses. Nosso jardim é uma mistura de flores e ervas e tem uma forma parecida com o que é chamado de "knot garden" também inspirado num pequeno jardim inglês. Os jardins ingleses criam um cenário da natureza selvagem e bela. As plantas de flor se alternam com arbustos grandes, sem regras paisagísticas, como se não houvesse intervenção humana.

Um exemplo do "knot garden" em Berkshire, Inglaterra com lavandas e tomilho.

Uma mistura de plantas aromáticas, de ervas culinárias, de flores e arbustos grandes. Temos até uma palmeira em crescimento no centro. O nosso jardim inclui tomilho de duas espécies, alecrim, orégano, sálvia, rosmaninho, hortelã, hortelã-laranja (que nem sabia que existia). Essas plantas caracteristicamente vão crescendo em forma circular formando touceiras. Entre elas a separação é feita por pedregulhos porque é difícil crescer grama nesse solo árido do Alentejo. Você começa plantando as espécies deixando espaços que vão ser tomados pelo crescimento excêntrico das touceiras. O ideal é que a forma desse jardim (knot garden) seja dada por uma espécie de arbusto que não achei no ano passado quando plantamos nosso jardim. Nosso projeto para terça feira, quando Manoel, o jardineiro vem. Manoel parece demais com Sean Penn, o mesmo rosto fino e magro e a forma do cabelo. Trabalha rápido, toma uma bica e nas horas vagas faz maravilhas com o mármore de Estremoz. Compramos a ele um tampo de mesa e encomendamos um pedestal para nosso Dom Quixote guerreiro.

Uma touceira de alecrim. Adoro cortar os ramos frescos na cozinha. Para peixes e rosbifes.

Sálvia. Uso os ramos cortados com a tesoura de cinco lâminas na cozinha.

Tomilho-limão, outra delícia culinária.

Rosmaninho (Lavandula sp), com lindas flores róseas comestíveis.

Poejo (um tipo de hortelã à esquerda) e tomilho-limão.

De novo poejo, erva medicinal e alcóolica porque licor de poejo é típico na região.

Hortelã numa touceira pequena depois da poda porque invade todo o espaço.

Na verdade o jardim cresce à vontade sem um projeto paisagístico.  O cheiro que levanta das plantas no momento de aguar é uma delícia para o olfato. Levantar é a palavra correta para explicar o perfume com um toque mentolado que se espalha no ambiente.

Uma vista da mistura de plantas em torno da palmeira. Notem a bela flor da planta carnosa.

Essa plantinha rasteira e invasora é a nossa grama. Preenche os espaços vazios lindamente.

Algumas ervas aromáticas não conhecia mas estou aprendendo a lidar com elas e a usá-las na cozinha. Muitas são consideradas medicinais. O poejo, da família da hortelã, faz um licor famoso na região. A banda Nirvana tem uma música chamada Pennyroyal Tea , que em tradução livre significa "chá de poejo". Hortelã é uma delícia num vaso de água gelada ou numa xícara de chá quente. nem precisa da infusão. É ir ao jardim, cortar um ramo e colocar na água fervida. 

Na parte da frente da casa o jardim é totalmente desordenado porque deixei crescer as ervas que dão flores de vários tamanhos e cores como as que vemos à margem das estradas. As ervas invasoras são o grande problema desse solo árido e nesse capítulo o mais complicado é a aveia brava que aparece , cresce e no verão seca com a aparência de uma trigal seco. Uma bagunça proposital ou sem nenhum propósito já que nada foi plantado mas simplesmente cresceu pela ação das abelhas e do vento.

Comecei a plantar lavanda nesse mês, em dez pequenos tufos que devem crescer e formar uma grande touceira. As flores de cor lilás como espigas são lindas e sonho com o dia de ter um campo de lavandas como na Provence francesa. Descobri que rosmaninho também é da família da lavanda e que tenho várias touceiras no jardim.

Pobre lavandinha nesse chão seco. Mas apenas começando e resistindo ao calor.

Quero completar com um toque de um jardim italiano, com algumas plantas frutíferas, trepadeiras, estátuas e uma fonte cujo local já está determinado. Temos a origem da água mas não achamos a fonte antiga como queremos. As árvores que plantamos cresceram em um ano e estão floridas e com pequenos frutos. Temos laranja, tangerina, pêssego, limão siciliano e ameixa. Estou curiosa para colher os primeiros frutos e descobrir seus sabores.

 

Flores coloridas ao pé das videiras.

E por fim temos três videiras cujas folhas que cresceram loucamente no ano passado, sem frutos, estão começando a cobrir uma espécie de pérgula na porta de entrada. Nesse ano conto centenas de pequenos cachos de uva como se fossem feitos para uma casa de bonecas de tão pequenos e lindos.

Os cachichos de uva começando.

As uvas estão crescendo. São roxas e verdes. A vindima é em setembro.

Nosso jardim não tem nada de um jardim japonês para meditação. Mas sentar na varanda e olhar a desarrumação e o viço das plantas, sentir o cheiro que a água da mangueira levanta, ver as abelhas ativamente fazendo seu trabalho de semeadura, ouvir o canto dos pássaros, observar a paisagem dos sobreiros e das oliveiras ao longe não tem preço. Temos até o perfil de um castelo-fortaleza, de arquitetura bruta, abraçado por laços de concreto, o Castelo de Evoramonte.

O castelo de Evoramonte fotografado à noite, visto da frente da nossa casa.

Essa construção bruta e árida, castelo fortaleza e seus laços de ornamento.

Uma  vida bucólica e feliz nessas paragens. Sentados no jardim, com nossos dois gatos, ouvindo ao longe a voz do pastor e o balir das ovelhas, a temperatura amena, a noite ainda clara como o dia, saboreando um vinho alentejano e aproveitando o momento completo e tão feliz.

E acontece que de repente o rebanho aparece com o seu pastor no meio do vale atrás de nossa varanda lembrando Alberto Caeiro e o guardador de rebanhos, sentados na paz da natureza sem outras gentes, sem pensamentos, sem ambições. "Há metafísica bastante em não pensar em nada", segundo o mesmo poeta. Há sabedoria enorme em viver o momento e saborear o que nossos sentidos percebem como prazer.

O rebanho ao longe, a voz do pastor, o balir e o tilintar.

O rebanho, o pastor, o balir, o ladrar e o tilintar.

Ao entardecer temos que agradecer pela vida que nos cerca e pensar no projeto de acordar feliz no outro dia.

 1 - Alberto Caeiro, "O Guardador de Rebanhos", poema I.

I - Eu Nunca Guardei Rebanhos

Eu nunca guardei rebanhos,

Mas é como se os guardasse.

Minha alma é como um pastor,

Conhece o vento e o sol

E anda pela mão das Estacões

A seguir e a olhar.

Toda a paz da Natureza sem gente

Vem sentar-se a meu lado.

Mas eu fico triste como um pôr do Sol

Para a nossa imaginação,

Quando esfria no fundo da planície

E se sente a noite entrada

Como uma borboleta pela janela.

 

Mas a minha tristeza é sossego

Porque é natural e justa

E é o que deve estar na alma

Quando já pensa que existe

E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.

 

Com um ruído de chocalhos

Para além da curva da estrada,

Os meus pensamentos são contentes.

Só tenho pena de saber que eles são contentes,

Porque, se o não soubesse,

Em vez de serem contentes e tristes,

Seriam alegres e contentes.

 

Pensar incomoda como andar à chuva

Quando o vento cresce e parece que chove mais.

 

Não tenho ambições nem desejos.

Ser poeta não é uma ambição minha.

É a minha maneira de estar sozinho.

 

E se desejo às vezes,

Por imaginar, ser cordeirinho

(Ou ser o rebanho todo

Para andar espalhado por toda a encosta

A ser muita coisa feliz ao mesmo tempo),

É só porque sinto o que escrevo ao pôr do Sol

Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz

E corre um silêncio pela erva fora.

 

Quando me sento a escrever versos

Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,

Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,

Sinto um cajado nas mãos

E vejo um recorte de mim

No cimo dum outeiro,

Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias,

Ou olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho,

E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz

E quer fingir que compreende.

 

Saúdo todos os que me lerem,

Tirando-lhes o chapéu largo

Quando me vêem à minha porta

Mal a diligência levanta no cimo do outeiro. 

Saúdo-os e desejo-lhes sol

E chuva, quando a chuva é precisa,

E que as suas casas tenham

Ao pé duma janela aberta

Uma cadeira predilecta

Onde se sentem, lendo os meus versos.

E ao lerem os meus versos pensem

Que sou qualquer coisa natural —

Por exemplo, a árvore antiga

À sombra da qual quando crianças

Se sentavam com um baque, cansados de brincar, 

E limpavam o suor da testa quente

Com a manga do bibe riscado.

 2 - "Pennyroyal Tea", lírica de música do Nirvana sobre chá de poejo.

I'm on my time with everyone
I have very bad posture

Sit and drink Pennyroyal Tea
Distill the life that's inside of me
Sit and drink Pennyroyal Tea
I'm anemic royalty

Give me a Leonard Cohen afterworld
So I can sigh eternally

I'm so tired and I can't sleep
I'm anemic royalty
I'm a liar and a thief
I'm anemic royalty

I'm on warm milk and laxatives
Cherry-flavored antacids

Sit and drink Pennyroyal Tea
Distill the life that's inside of me
I'm anemic royalty
I'm anemic royalty
 
3 - Descrição do castelo de Evoramonte, José Saramago, em Viagem a Portugal, página 220.
 
"...um corpo central quadriláteroque se desnvoleve, nas esquinas, em cubelos circulares. Dentro o efeito é magnífico, com grossa colunas sustentando as abóbadas dos três andares, todas diferentes, tanto as abóbadas como as colunas, e as salas comunicando abertamente com os cubelos. O ambiente é, realmente renascentista, próprio para reuniões e festas de estilo..... O viajante olha, intrigado, as colunas do piso térreo: na base, a toda volta, estão esculpidas labaredas. Labaredas, porquê? Que lume era esse, ateado na pedra, em Évora Monte? A bagagem do viajante já vai cheia de enigmas, oxalá esse não pegue fogo aos outros."
 
A mim intrigam os laços a sustentar essas pedras sólidas.
 
4 - Évora Monte ou Evoramonte.
 
As duas grafias são possíveis e usadas, inclusive oficialmente.
 
 
 
 
 

 

 

Comentários

Rosana marquês
17/06/2017

Adorei o texto com a simplicidade de seu jardim, conseguiu me transportar para o Alentejo. Parabéns

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