BLOGUEIRA

CRISTIANA ALTINO DE ALMEIDA

Médica especializada em Medicina Nuclear e Endocrinologia. Uma habitante a mais de Evoramonte onde vivo com Jan Kremer, jornalista e escritor holandês. Escolhemos Portugal para viver parte do ano. Outra parte pretendemos passar no Brasil, na Holanda e viajando. Queremos aproveitar nosso tempo priorizando qualidade de vida.

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XXII - A FUNDAÇÃO OBRAS E SEUS HABITANTES FANTÁSTICOS - PARTE I

Jan, meu amor holandês apaixonado pelo Alentejo, conheceu Portugal através da Fundação Obras, que frequentou algumas vezes desde 2004, enquanto escrevia um de seus romances policiais de suspense. Sempre falei de seu talento como escritor pelo estilo limpo e sóbrio, o difícil estilo de Hemingway que elimina os adjetivos supérfluos tão caros à nossa linguagem latina. Falei também que dariam excelentes filmes, com cenas dantescas de mortes violentas e apropriadas ao mistério da história. 

A Fundação Obras "Foundation Obras - art residency program" existe pelo trabalho entusiasmado e incansável de seus fundadores holandeses Ludger van der Eerden e Carolien van der Laan, nossos amigos, nossos convidados para muitas tardes de queijos e vinhos na nossa varanda no monte da Fazenda. 

Situa-se numa herdade próxima ao nosso monte, uma fazenda sem cultivos importantes além do cultivo de seus artistas habitantes, uma quinta de 200 anos de idade, velha como é velho o mundo dos hábitos alentejanos. A herdade tem o nome pitoresco de Herdade da Marmeleira, o que nos remete aos marmelos, fruta cultivada para doces caseiros e industriais, a marmelada.

Da varanda a bela paisagem alentejana ao entardecer.

Na Obras artistas do mundo inteiro residem como habitantes temporários desenvolvendo seus trabalhos de arte diversos e abrangentes. Podemos encontrar e conversar com poetas americanos, escritores ingleses, pintores holandeses, escultores, ceramistas, artistas especializados na extração de sons do ambiente e de sua transformação em arte, fotógrafos, atores e músicos. Além dessa convivência harmoniosa e inspiradora que é o próprio convívio estimulado pelos jantares em comum, cada um colaborando com um prato e um vinho, a fundação organiza eventos internos ou exposições nas cidades vizinhas, como Estremoz ou Évora ou eventos no castelo de Evoramonte. Cerca de 500 artistas e 10 cientistas estiveram nessa herdade desde 2004 até o momento.

Conheci a herdade, seus donos e seus habitantes temporários em junho de 2014, exatamente no dia 11 de junho, quando da explanação da obra de uma pintora inglesa Sally Stafford, uma senhora exótica e alta, com cabelos brancos de comprimento médio e um sorriso simpático e cativante. Seu trabalho feito em colaboração com India Flint, uma artista têxtil da Austrália. Sete Filhas, Sete Irmãs (Seven Daughters, Seven Sisters) foi mostrada ao público no Castelo de Evoramonte entre junho e agosto de 2014. As artistas escolheram sete mulheres de flores ou seriam sete mulheres floridas, alguma ficcionais, outras retiradas da história, cada uma com um vestido pintado e uma pintura, cada uma com sua lenda ou sua história. Sete vestidos, sete históras, sete lendas, sete pinturas de múltiplas flores.

Sally Stafford e India Flint na inauguração da exposição no Castelo de Evoramonte.

E quem eram essas sete mulheres escolhidas e pesquisadas, representadas pelo bailarino português Márcio Pereira na abertura da exposição? A primeira a Rainha Santa Isabel, aquela do castelo-hoje-pousada de Estremoz, aquela que transformou em flores que lhe caíram do regaço os pães que ia distribuir aos pobres, uma rainha/ mulher/ santa que viveu de 1271 a 1336. A segunda uma figura central lendária chamada Blodeuedd ou Blodeuwedd, uma deusa celta, cujo nome significa literalmente face feita de flores. Georgiana Molloy, uma pioneira australiana, que viveu entre 1805 e 1843, apaixonada por botânica e que colecionava espécimes da flora local enviando sementes classificadas para a Inglaterra. Māra, deusa da mitologia letã/ báltica, deusa dos atributos femininos e da mesa (Deus dá a mesa, Māra dá o pão). Seets-àma, aquela que distribui fragrâncias de flores das costas de um beija -flor, lenda oral dos índios norteamericanos. Dewi Sri ou Shridevi, a deusa do arroz e da fertilidade, adorada em Java e Bali. E finalmente Florbela Espanca, a poetisa portuguesa que viveu de 1894 a 1930 e que em suas poesias usava a natureza como metáfora da paixão humana. A que dizia que há uma primavera em cada vida e que é preciso cantá-la assim florida.

Sally falando para o grupo e explicando sua criação.

Não sei quais flores pertencem a cada uma dessas mulheres encantadas porque ouvi superficialmente toda a explicação das lendas e das pinturas mas gosto de advinhar a visão do artista, das artistas que tecendo vestidos com tintas naturais australianas e associando esses vestidos iguais com diferentes texturas a sete diferentes mulheres mostram sua visão da natureza, da feminilidade e da beleza. Sinto uma atração incurável e crescente pela criatividade e pela bravura da exposição dos sentimentos e da alma em diferentes formas de arte.

Atenta às deliciosas explicações das pinturas, com Ingrid Simons e Ludger van der Eerden.

Na exposição no castelo de Evoramonte um dos sete vestidos, um contraponto às pinturas.

Quem consegue fazer corresponder cada pintura a uma mulher-flor/ natureza? 

Gosto do ambiente, da atmosfera, do aconchego e principalmente da simplicidade do local. Da casa, dos estúdios, do companheirismo, da admiração pelo trabalho exposto. Gosto desses habitantes e de sua maneira de vestir e de sonhar.  

A mesa posta para mais um jantar coletivo.

Gosto da profusão de cores, das flores que saem da paisagem para a toalha da mesa. E de sentar à mesa com esses artistas viajantes entregues à própria arte e experimentar de suas culinárias, beber do vinho de todos e conversar e rir por pura diversão.

Jan Kremer, o verde, as flores e o entardecer à espera dos convivas do jantar.

Ingrid Simons, holandesa, pintora, ceramista, artista gráfica, aprendendo a técnica de azulejos. 

Em 2014 Ingrid Simons esteve pela quinta vez na Fundação Obras, encantada com a paisagem alentejana que teve e tem grande impacto no seu trabalho, nas suas paisagens bonitas e expressivas, posso dizer dramáticas, em geral numa técnica escuro-claro. Em tons de negro e cinza, em tonalidades de azul ou em verde-amarelo. Apaixonada pela azulejaria portuguesa ela trabalha no Alentejo com um mestre, chamado Mestre Xico, em Redondo que queima seus azulejos pintados nessas mesmas cores, em desenhos abstratos ou de paisagem. Somos apaixonados pelo seu trabalho, temos um enorme carinho pela sua personalidade simples e cativante. Temos dela uma pequena gravura, um livro e um vaso que de um lado retrata a paisagem dos sobreiros alentejanos e do outro os pinheiros da Holanda. Um vaso presente surpresa de Jan Kremer para mim depois que ela, Ingrid me perguntou de qual gostava mais na sua exposição. A obra mais importante da nossa casa. Ela fala português que aprendeu pela convivência com um amigo de Angola e nas suas visitas a Portugal. Nesse dia, nesse jantar a encontrei pela primeira vez. Adoro os títulos em português de suas exposições, tipo  “O azul do Alentejo sob o meu olhar”,  "O jardim Secreto",  "Raios de Luz" ou "Só os caminhos eram meus (2013)".

Ingrid Simons trabalhando ao ar livre na Fundação Obras.

Seu currículo mostra suas exposições, sua enorme capacidade de trabalho, o uso maestral de diferentes técnicas e vários prêmios recebidos. 

Vasos de cerâmica de Ingrid Simons, meu futuro presente à direita, na fileira de cima.

Addoley Dzegede, à esquerda, artista americana e cineasta de curta-metragens.

Addoley Dzegede, de Minnisota, nesse tempo no Alentejo usou a estação de trem abandonada como local de trabalho. Essa estação fica a uma distância de 10 minutos andando a partir da herdade, nas paragens alentejanas. O último passageiro (um belo nome para um romance) pegou um trem nessa estação há mais de 30 anos. Uma das salas de espera foi refeita, repintada por ela num padrão inspirado em plantas locais: a flor da alcachofra e uma flor rosa cujo nome em português não sei,  "Gum rockrose" ou Cistus ladanifer, uma flor silvestre dos campos alentejanos. Fez também um curta-metragem, chamado  "As Loucas" ou "The Crazies", um filme sobre as formigas no terraço da casa da herdade. Esse filme foi apresentado em festivais americanos em 2014 e 2015 e na Rússia. Documenta as pequenas batalhas travadas por esse minúsculos habitantes sob nossos pés usando como fundo a trilha sonora de O louco, da cantora de fado Maria Alice.

A luta, a força, o trabalho, as loucas sob nossos pés, ocultas ao nosso olhar.

Um artista observando outra: Mike Harvkey atento a Sally Stafford.

Mike Harvkey é escritor e estava trabalhando em ficção, seu primeiro livro publicado em seguida. Um romance chamado: "In the Course of Human Events", sobre um jovem homem que presta assistência a um tio com problemas físicos e entra em contato com movimentos de extrema direita, mostrando a nossa vulnerabilidade para lavagem cerebral. Me parece um tema muito atual que vivenciamos agora, por exemplo na cegueira dos que defendem a esquerda chamada bolivariana que se apossou da América Latina e que criou a maior rede de corrupção no mundo atual, misturando o dinheiro público com o privado numa embrulhada de presidentes, políticos, doleiros, laranjas e donos bilionários de empresas, especialmente de empreiteiras. Ou quando há uma tendência de uma geração para uma guinada conservadora, crescente na Europa e aparente e vencedora nas últimas eleições americanas com a posse de Donald Trunp.

Alguns artistas desse ano não conheci mas gosto particularmente das pinturas de Kevin Tolman, cujas obras podem ser encontradas em várias galerias americanas. Ele viveu em Arraiolos há mais de 25 anos e sua arte pode ser considerada intuitiva e abstrata. O uso de camadas sobre camadas de tinta na sua pintura, incluindo o trabalho com recortes de jornais ou de tecido, resulta da sua percepção de Portugal, resultado de muitos eventos  históricos, alguns ainda evidentes outros invisíveis. Não é impressionante como cada artista explica sua arte? Ou como todos os que passam nessa região se apaixonam por Portugal e voltam, e voltam e voltam como esse americano e suas camadas artísticas de tinta.

Outra que não conheci foi Sara Tolman, acho que sua mulher pelo sobrenome, também americana, que faz colagens curiosas de seus próprios desenhos em cima de fotos do local. Fascinada pelos porcos pretos alentejanos que habitam o outro lado do vale, próximo à herdade trabalhou com eles , os porcos, que aparentemente também ficaram fascinados por ela, a artista. Isso está escrito na sua citação na Fundação Obras e espero que julguem a forma vívida e original da sua arte na foto que coloco aqui.

Linda a paisagem, típicos os porcos pretos, coloridas e quase infantis as colagens.

Essa é a primeira parte do meu olhar sobre o Alentejo e sobre esses artistas que amam a região como um lugar de aprendizado e de inspiração para sua arte. A qualidade desses artistas varia certamente o que não tira deles o encantamento, a personalidade, a bravura e a aura de suas presenças nessa residência de trabalho e de criatividade. Acho que mais pessoas devem conhecer o esforço e a dedicação do casal responsável por esse local, nossos queridos amigos Ludger e Carolien.

Nossa vida no Monte da Fazenda seria mais pobre sem esses amigos e sem os eventos onde dizemos sempre presente com o maior prazer.

Referências:

1 -Fundação Obras:  http://www.obras-art.org

2 -Sally Stafford: http://www.sallystafford.com

3 - Sete Filhas Sete Irmãs: http://www.sallystafford.com/sete-filhas-sete-irmatildes-seven-daughters-seven-sisters-exhibition.html

4 - Rainha Santa IUsabel: https://pt.wikipedia.org/wiki/Isabel_de_Aragão,_Rainha_de_Portugal

5 - Blodeuedd ou Blodeuwedd: https://en.wikipedia.org/wiki/Blodeuwedd

6 - Georgiana Molloy: https://en.wikipedia.org/wiki/Georgiana_Molloy

7 - Māra: https://en.wikipedia.org/wiki/Māra

8 - Seets-àma: não encontrei referências exceto na descrição da exposição.

9 - Dewi Sri ou Shridevi: https://en.wikipedia.org/wiki/Dewi_Sri

10 - Florbela Espanca: https://pt.wikipedia.org/wiki/Florbela_Espanca

11 - Amar, poema de Florbela Espanca: há uma primavera em cada vida: é preciso cantá-la assim florida.

Amar!

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: aqui… além…
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente…
Amar!  Amar!  E não amar ninguém!

Recordar?  Esquecer?  Indiferente!…
Prender ou desprender?  É mal?  É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder… pra me encontrar…

12 - Ingrid Simons - http://www.obras-art.org/ingrid-simons.html

                                              http://www.ingridsimons.com

13 - Algumas telas de Kevin Tolman desse ano na Fundação Obras:

Herdade de Marmeleira

 

Metamorphosis / Alentejo, 2014

 14 - Fado: O Louco, Alfredo Marceneiro, trilha sonora do curta metragem The Crazies.

Quizes-te que eu fosse louco
P´ra que te amasse melhor
Mas amaste-me tão pouco
Que eu fiquei louco de amor

Assim arrasto a loucura
Perguntando a toda a gente
Se do amor, a tontura
Um louco tambem a sente

E se quizeres amar
Esta loucura mulher
Dá-me apenas um olhar
Que me faça endoidecer

Dá-me um olhar mesmo triste
Pois só nesta condição
Dou-te a loucura que existe
Dentro do meu coração

O lenço que me ofertaste
Tinha um coração no meio
Quando ao nosso amor faltaste
Eu fui-me ao lenço e rasgueio

 

 

 

 

 

Comentários

Evaldo Altino
26/02/2017

Mais um artigo delicioso.

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