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CRISTIANA ALTINO DE ALMEIDA

Médica especializada em Medicina Nuclear e Endocrinologia. Uma habitante a mais de Evoramonte onde vivo com Jan Kremer, jornalista e escritor holandês. Escolhemos Portugal para viver parte do ano. Outra parte pretendemos passar no Brasil, na Holanda e viajando. Queremos aproveitar nosso tempo priorizando qualidade de vida.

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I - DA NATUREZA E DA SAUDADE
Já escrevi sobre saudades porque a saudade está sempre em mim como um sentimento físico. Pode ser um sentimento l&iacu...

I - DA NATUREZA E DA SAUDADE

SEGUNDA-FEIRA, 9 DE NOVEMBRO DE 2015 

Já escrevi sobre saudades porque a saudade está sempre em mim como um sentimento físico. Tentei explicar a Jan que aprendeu o que significa saudade em Portugal, mas que não entendeu como pode ser físico. Pode ser um sentimento lírico?

Face Time para amenizar a saudade.

Essa é a hora do dia em que esse sentimento é esquecido. Ou amenizado. Porque nesse encontro há a cumplicidade e o riso. Mas não há o toque das mãos. A hora é o nosso tempo online, em geral pelo Face Time, quando sabemos das rotinas de cada um.

"O meu olhar é nítido como um girassol."  Para perceber os sentimentos na voz e no gestual. Consigo perceber/ sentir amor e saudade misturados com felicidade. Porque o que adoça a saudade é saber que ela vai passar e que em breve estaremos juntos. Por isso essa saudade é boa.

Juntos temos o costume de andar pelas estradas e observar o que nunca tínhamos visto antes. Mesmo em lugares conhecidos e já visitados porque olhamos com o prazer cúmplice de descobrir a eterna novidade no mundo que já tínhamos descoberto. Vejo a cada momento o que nunca antes tinha visto.
Porque juntos não temos filosofia mas sim sentidos. Um andar de dedos entrelaçados. E uma risada fácil.

Pegados de surpresa em Zutphen por um amigo fotógrafo Willem.

"Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo..."


Andando no Kröller-Müller Museum.

Sentimos isso ao andar nos caminhos alentejanos saindo ou voltando para nossa casa. Ou na Holanda. em qualquer das cidades que visitamos, Arnhem, Zutphen, Nijmegen, Amsterdam ou Laren. Ou em Recife. Ou em Londres. Não interesssa o lugar. Amamos andar nas cidades ou em parques. Em qualquer cidade procuramos o contato com a natureza e isso não é um chavão. É quase uma regra tácita.

Escondida e divertida no Kröller-Müller Museum.

"Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar..."

Kröller-Müller Museum: Jean Fabre.

Aqui a natureza sofreu uma intervenção de arte e mesmo assim as árvores predominam. A inserção artística é casual e no entanto é bela e fenomenal. A intervenção artística aqui são as cabeças em pedestal do escultor Jean Fabre, da Bélgica. Houve uma grande exposição das obras desse genial e múltiplo artista no verão de 2011 nesse museu holandês. Uma parte de seus trabalhos foi comprada pelo museu, essas cabeças estranhas, chamadas "Chapters", uma série de auto-retratos, parte de um trabalho maior de dezoito esculturas: Hoofdstukken, I - XVIII, 2010. Cada uma das cabeças tem uma excrescência que não se ajusta ao ser humano. Chifres, antenas, orelhas e dentes descomunais. O próprio Fabre disse acreditar que todos nós somos esquizofrênicos. Talvez em cada um de nós haja um ganster, um gênio, um palhaço ou um charlatão. Somos máscaras desses caracteres. São dezoito auto-retratos esculpidos, dos quais oito estão nesse jardim, entre árvores. São todos diferentes porque cada um veste diferentes personalidades. Em mim eu tenho escondida uma mulher romântica e sonhadora que aparece até demais nesses escritos. Acordo e visto minha roupa de sonhar que não tiro para dormir.

Outono/ inverno e céu nublado na Holanda.

"Creio no Mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo..".

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...

Cirros-cúmulos.

Amo esse céu nublado de cirros acumulados, talvez cirros-cúmulos. Que interessa o nome dado à essa formação de nuvens como uma rede tricotada contra o céu azul? E na borda desse tecido uma aplicação de renda, um matame para uma coberta de sonhar.

Lembro os vestidos de princesa de Narizinho de Monteiro Lobato, o hoje proclamado racista pela ignorância arrogante de um partido autoritário e incompetente. Pela não cultura do racismo. Ou pela instigação burra do racismo. Nesses vestidos os peixes nadavam e as estrelas brilhavam. No meu céu de tricot e renda apenas o contemplar faz bem à alma.

As esculturas no gramado do Museu.

Falei do Kröller-Müller Museum e não expliquei porque esse museu é tão lindo e porque vale a pena visitá-lo. O museu é localizado em Otterlo, na Holanda, um museu de arte com um jardim de esculturas, no Hoge Veluwe National Park. De Beeldentuin.

Tem a segunda maior coleção de pinturas de Vincent van Gogh, sendo o mais rico e importante o Van Gogh Museum, em Amsterdam. "Café Terrace at Night" faz parte da coleção assim como uma versão de "The Potato Eaters". O jardim de esculturas é um dos maiores da Europa e reflete o conceito da colecionadora e fundadora do museu Helene Kröller-Müller sobre a simbiose entre arte, arquitetura e natureza.

Essa escultura assim jogada e fotografada por mim, deitada no meio do gramado, chama-se Niobe, de Constant Permeke, uma artista belga (1886-1952). A escultura data de 1951. Ao fundo uma escultura francesa, "La grande Pénèlope", de 1012, de Émile-Antoine Bourdelle. Penélope, a que sempre esperou e foi fiel numa atitude contemplativa. A que nunca quis casar enquanto esperava Ulisses. 

Em Amsterdam. I amsterdam.

Andamos também mais de uma vez em Amsterdam, nessa foto num domingo chuvoso e frio, o clima típico holandês. Visitamos o Rijksmuseum e nos abraçamos na chuva para uma foto turística. Ver essas fotos hoje é como reviver nossa histórias e matar um pouco as saudades.

Gostamos de andar em Arnhem, especialmente no Sonsbeek Park, bem perto da casa onde Jan morava. Na Holanda fazemos tudo a pé. Em cada cidade que visitamos andamos a pé. Andarilhos do mundo. Andar nesse parque, parar e conversar, apreciar a bela vista nas diferentes estações do ano e perceber as gradações de cores do verde ao amarelo. No outono o chão coberto de folhas.

O parque é enorme e lindo e junto ao Zijpendaal. Essas fotos foram tiradas nesse segundo parque, prolongamento do Sonsbeek ao norte.

 

Asclepius, Teleaphorus, Hygieia e eu.

Foto com mais uma bela estátua no jardim do Zijpendaal representando Asclepius, Hygieia e Telesphoros. Todos da antiga religião grega, sendo Asclepius filho de Apolo, Telesphorus filho de Asclepius e Hygieia sua irmã.

Sentados no Zijpendaal em frente à linda casa do parque.

Andamos também durante horas num dos mais lindos museus que visitei, o Openluchtmuseum em Arnhem. Nesse museu podemos ver e participar da vida de uma antiga vila holandesa, com seus moinhos, suas fazendas, a fábrica de queijos, os campos, as pequenas casas. Um dia vou descrever melhor esse belo passeio. 

Um museu aberto, ao ar livre, o Openluchtmuseum.

Muitas vezes andamos em Zutphen, uma das mais belas cidades que visitei em detalhes, percorrendo suas ruas, as praças, os parques, as margens do rio Ijssel. Como Jan escreveu um livro sobre essa cidade e suas lendas conheço os pequenos recônditos dela.

Em Zutphen.

Jan, meu amor, em Zutphen.

Comecei falando de saudade e natureza, porque estava lendo e relendo o poema de Alberto Caeiro,
"O Guardador de Rebanhos". Gostei de suas frases e de seus conceitos. Especialmente essa: eu não tenho filosofia, tenho sentidos. O que é uma filosofia de vida. A filosofia de não ter filosofia e de não compreender o mundo mas apenas vivenciá-lo.
Descartes dizia: penso logo existo. Eu digo: vivo, logo existo. Não penso para viver. Claro que penso para trabalhar, para coisas racionais, para votar.
Mas a vida é uma sequência de coisas que acontecem, de oportunidades que se abrem e que só são vividas se estamos abertos a elas. Senão a vida passou na janela e Carolina não viu.

O amor é para ser vivido e não compreendido.

"Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar..."

Referências:

1 - O Guardador de Rebanhos: Alberto Caeiro/ Fernando Pessoa.

Poema II 

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo comigo
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo.

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar...

2 - Café Terrace at Night, Vincent van Gogh.

Acervo do Kröller-Müller Museum.

3- The Potato Eaters, Vincent van Gogh.

The Potato Eaters, no mesmo museu.

4 - La grande Pénèlope, Émile-Antoine Bourdelle.

 

Contemplando e esperando. Falta o bordado.

 5 - Hoofdstukken, I - XVIII, Chapters, Jean Fabre.

Hoofgstukken completo I-XVIII, quando da exposição em 2011.

Sete das esculturas de Chapters, Jean Fabre.

Auto-retratos de jean Fabre. Dispensa legenda.

6 - O Museu Kröller-Müller:

https://en.wikipedia.org/wiki/Kröller-Müller_Museum

 

 

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